fechando a quitandinha


prezado leitor,


fui poeta por mais de quatro anos. não sou mais.

agora sou escritor de livros infantis. é isso o que sou.

relendo os poemas antigos eu tenho a medida exata do escritor de livos infantis que sou, não do poeta que fui.

foi um feliz aprendizado.


o autor.

hieroglifos

a letra cursiva
de um menino
em idade escolar

desliza no tobogã da espiral
derrama o café da manhã na capa
suja de brincadeira as bordas

as letras, de mãos dadas,
a princípio consecutivas
(o abc do abecedário)

finalmente dispersam
se precipitam no mundo
voam como piões, giram como pipas

menino, casa, coração.
há vírgulas neste mundo
e pontos finais

e uma cedilha se apaixona pelo til
e o som de z da casa vem das panelas da cozinha
e há lugar para os quintais e para o mar

mal sabem eles (sabem de cor)
que, aos pequenos saltos, entre duas linhas
seus hieroglifos se inscrevem no céu


5 de março de 2015.

duas ilhas

serás poeta
serei pintor

serás astronauta
serei piloto

como alexandre
vi
as crianças dividem
o mundo

serás sereia
serei princesa


serás marujo
serei pirata


18 de dezembro de 2014.

alpendre

são as pequenas curiosidades
que nos prendem aos navios
se vão, se ficam

se partem abastecidos
se retornam vazios
navios esperando
navios esquecendo

velhos comboios
novos colombos
fincados à terra

os navios, como lugares de passagem,
têm muito a revelar aos corações

uma mera despedida, eles sabem,
é o que separa alguém de ser
prisioneiro da própria partida


30 de novembro de 2014.

frutas da estação

notícias de uma terra boa
o frescor de coqueiros
e a brisa de mil praias

o alívio da carta extraviada nas mãos certas
o pergaminho, os caminhos
os primeiros amores

sinceros como uma cor primária
depois deles, não há mais azuis límpidos
vermelhos intensos e verdes imensos

resolutos como um dia ensolarado
que vejo passar com calma aos domingos
e apressado nos dias da semana

pois há quem peça por desamparo
que pendure o chapéu em qualquer casa com uma chapeleira
que não se importe de não encontrar à noite o que deixou pela manhã
há quem deserte como quem aflora

mas não os primeiros amores
sempre tão florados, singelos e sortidos

um dia me disseram que os primeiros amores
devem acabar o mais rápido possível
florados, singelos e sofridos que são

afinal, quantos amores sem nome aparecem e somem
enquanto insistimos no primeiro amor?
(eu arriscaria seis por mês)

não pode ser fruto de esforço o que começou perene
sob a sombra perpétua de palmeiras-imperiais
com o borrifo eterno sobre o passeio à beira-mar

mas os primeiros amores não tardam a perder o frescor –
tem coisa mais triste que um amor de velhice na juventude?

um fantasma envelhecido num barril de carvalho
a mentira crescendo bem debaixo dos olhos
não mais responder ao chamado em chamas do outro –

foi quando soubemos que aquele coração
vivera mais do que a estação permitia


10 de novembro de 2014.

relato de um ilhéu

todo o amor que tivemos, tudo o que vimos
me inundaram com os segredos do mar
só é uma ilha se vista da água
e bem de longe, e de todos os lados

a mim, sempre pareceu um continente vasto
em cada lugar que estou tenho uma praia à frente
e a certeza tão vaga de um dia perdê-la

de ver um cais sem viajantes de além-mar
de ter um quebra-mar sem o embate
das ondas e a força das correntes
de tudo ser aterrado, para eu desenhar
na cartolina azul-marinho um arquipélago –
as ilhas perfeitamente unidas

descobri que um rochedo no meio do mar
(bem como o habitante de uma ilhota)
pode-se chamar ilhéu, e àquela noite
sonhei que os jardins do fundo do mar
(com algaços e corais de todos os feitios)
alastravam-se pelo quintal da casa

a distância que o mar impõe às coisas da terra
(sendo mais forte que o cheiro do mar,
que a ferrugem vermelha dos metais)
merecia se chamar maresia

quando os prazeres da terra rumorejam
o que me alaga de desconfiança –
o viço glacial do mar ou o morno sopor da terra?


23 de outubro de 2014.

caravelas

não há dúvidas
tudo inspira e conspira
o vento traz aventuras
que a embocadura do rio leva –
para cada garrafa no mar
uma ampulheta no deserto
águas-vivas, escaravelhos
os tempos mortos das caravelas
do que precisamos?
um dia claro: proa, prumo
o mar calmo: popa, pipa
uma ave azul
um banco de areia
seus lugares de maravilhamento
são meus recantos de solidão
seu mirante, cabo das tormentas
meu minarete, peregrinação
certas estradas são descobertas
na maré baixa, mas a maré alta
já nos concede tantos rumos
a grande barreira de corais na austrália
é o maior organismo vivo da terra, saiba
é preciso merecer os milagres
você consegue rir
do fundo do meu coração?


13 de outubro de 2014.

gardênia

magnólia, jasmim
bromélia, flor-de-lis

hortênsia na horta
hibisco e camomila na xícara
toda flor que se cheire

torradas com geleia seguidas
de copos-de-leite em jarros
e cada laranjada nos concedia
uma flor de laranjeira

os canteiros de íris
brancas, amarelas, azuis
brotavam a cada espiada –
tantos narcisos cobrindo
às cegas o espelho-d’água

então achegaram as dormideiras
que se fechavam à noite
ou quando tocadas

e que me contaram relatos de seu reino, onde
lírios-do-vale sinalizavam caminhos já afastados
bem-me-queres tinham uma pétala oculta
e o sol queimava girassóis, e lembrei que

certa vez billie holiday chamuscou o cabelo
antes de entrar no palco, então lhe deram
uma gardênia branca, que jamais a abandonou

sempre-viva, amor-perfeito
rosa, violeta, lilás, margarida
mas a gardênia nos escolheu


6 de outubro de 2014.

cânion

que vida romântica
imaginam para mim
à sombra de um
algodoeiro em flor
trocando cores
com o mar

descendo montanhas
pelo lado mais escarpado
jogando pedras
da amurada do cais
laçando ilhas
para perto

mãos no curso de água
a varrer a paisagem vasta
e o engenho dos cipós –
ramo de amoreira partido
dando livre curso ao tempo

é inevitável me sentir tolhido
pelos paredões de terra
deste fiorde desértico
tantas pedras de idades
e sabedorias diferentes

agora vejo de cima
o espaço vermelho
cavado com custo

enxergo pontos guardados de luz
a colecionar tudo o que me envolvia
e que não apercebia

à beira do abismo, como cativam
os acidentes, as depressões
os desfiladeiros correndo
as corredeiras desfilando

e quando o cânion se preencher de nuvens
ou das copas das sequoias milenares
que nunca cuidei de plantar

que notícias os pardais trarão ao ninho,
que vultos vão assomar-me aos olhos,
que correnteza me levará?


30 de setembro de 2014.

varais

o divertimento favorito
dos povos do vento
é ver roupa estendida

sacudir a roupa
convidava a brisa

xale, xador
ardor nos ombros
o rosto à mostra

blusa, burca
botões abertos
tela para os olhos

tramava a noite
tecia a vida

tomara que caia
camisa polo
norte e sul

do avesso
para preservar as cores

jaleco, jardineira
sempre branco
sempre verde

pijama, poncho
para caçar carneiros
para criar lhamas

varais nas colinas
varais nos quintais
celeiros de formas ausentes

estas peças têm brisa
no coração

saia-balão
camiseta regata
infladas de vento

e quando finalmente secam
o gentil empurrão para o ferro –

a soprar dentes-de-leão
(as sementes secas da flor)
os povos do vento
vestem os vivos


18 de setembro de 2014.

chuva antiga

a chuva antiga que os telhados guardam
e as gotas frescas que tombam das árvores

as marcas de copo na mesa de madeira
e as furtadas pelos porta-copos

a porcelana da xícara manchada de chá
e a dos bibelôs intocados nos armários

a chuva antiga e a fresca
os discos escuros na madeira
o craquelê na porcelana

houve um tempo para as poças
o chuvisco diluvioso das terças
as tardes de alarde e bossa
houve um tempo para as peças

para as lembranças das refeições
da costura, da escrita à mesa
de madeira

houve um tempo em que cada xícara de chá
deixava a borra delicada das folhas
à espreita

as manchas inominadas, a água parada –
pequenas bolhas da alegria
desfeita


13 de setembro de 2014.

minhas xícaras

minhas xícaras só têm asas
quando tomo chá

se nelas coloco café
desasam

se nelas bebo chocolate quente
queimam meus dedos

minhas xicrinhas só são felizes
quando transbordam de chá

e posso jurar que se estiverem
acompanhadas do bico da chaleira
da plumagem da prataria

da leiteira maritaca
do açucareiro rolinha
do bule azulão

ainda voam de asa-delta, minhas xícaras
ali da pedra bonita, dia desses
e pousam no pires


2 de setembro de 2014.

santuário

a cidade me contava histórias quando criança
de teatros à beira-mar rendidos à maresia
de museus no alto de dunas abertos às monções
dos contadores de histórias em cada esquina

de cinemas ao ar livre em estradinhas vicinais
de um grande parque erguido sobre palafitas
das noites de superlua, da aurora boreal
e do sol da meia-noite, vistos tão raramente
pois estávamos tão abarcados pelo sul

me contava das piscinas de águas termais
onde afloravam vitórias-régias e o olho do pintor
dos salões de carteado nos bancos de areia na maré baixa
e dos destroços submarinos salvos pelo mergulhador
do azul, dos corais, da inclemência dos sais

sabia das casas de chá alinhadas no subúrbio
que serviam o melhor chá das seis do continente
me falava sobre procissões em praias desertas
sobre uma cidade em que todos moravam em faróis

forasteiro em meu quarto, quando criança
encontrava meus túneis à luz das enciclopédias
que me contavam histórias sobre o cosmos
sobre as coisas que se carregam de tempo
sobre tudo que se encarrega do tempo

e perguntas como por que os planetas são redondos
e um buraco negro pode engolir outro eram feitas
sobre a grama, sob a coberta de flanela e o tapete de estrelas

pois o aroma mineral da relva permaneceu na casa
que fizemos brotar da terra com nossas vozes
e corpos-vestes, nossas serras e arados

quando me disseste faça suas escolhas
antes que a vida escolha por você
aderi à paisagem dispersa em novas constelações
e corpos celestes, novas esferas e alvoradas


30 de agosto de 2014.

clareira

agora parece justo
olhar para nós dois
como perdidos no escuro –
a atenção que dedicamos
aos sons do outro
às formas do outro
aos murmúrios rangentes
de um diário aberto
à cadência invisível
das manhãs de sábado

as aparências se pintam
em superfícies lustrosas
e escorregadias
há movimentos em falso
falésias distantes do litoral
espelhos d’água profundos
fiordes tropicais, encostas
tombadas

será que cultivamos pensamentos idênticos
à frente de nossos espelhos?
que vislumbramos a mudança no outro
(a barba que se alastrou por regiões amenas do rosto
o cabelo mais ondulado, salino
a pele conduzida à floração)
a partir da nossa?

sim, parecemos perdidos numa paisagem
que seria perfeitamente reconhecida
com o mais leve crepitar
da menor labareda
de uma fogueira

como me assusta
a vida dormente
das coisas assentadas
a possibilidade premente
de ser singrado por olhos
familiares e desabitados


1º de agosto de 2014.

as canções

quando andamos à noite pela cidade
notamos as pequenas casas
ajardinadas

tão recatadas e invisíveis
quando vamos à padaria
pela manhã

num sábado espraiado
tal qual um gato
num quadriculado de sol

a palavra paciência
nos agrada
no dicionário

(uma pequena estrela
extinta num planetário)

são muitas as pétalas
de nossos encontros

arrancamos uma a uma
com a sede da torneira
uma sede pelo sal

com quanta razão já se disse
que a última coisa que o habitante
do fundo do mar descobriria
seria a água

e que um rio assoreado
guardaria o pontilhado
da areia, da argila
dos sedimentos

(as manchas da ampulheta
dos sentimentos)

o desejo, como vimos, é cheio
de distâncias infinitas

meu coração
reluta em receber
certas canções


1º de julho de 2014.